terça-feira, novembro 28, 2006

Grandezas & Misérias da Invicta


Uma lenda enraizada é a de que a Norte se come sempre bem. Não é verdade. Ele há sítios onde se come bem (cada vez mais raros) e sítios onde se come mal (a larga maioria). Se juntarmos ao défice de cozinha um tipo de serviço muitas vezes simpático mas quase sempe pouco profissional, e se pensarmos que no triângulo Porto-Matosinhos-Leça os preços praticados são iguais aos do eixo Lisboa-Cascais, temos um cenário desencorajador. Vejamos as classificações que nos merecem quatro moradas selectas do Porto:


Porto Novo, restaurante do Sheraton Hotel / 17 valores
Kool, restaurante da Casa da Música / 9 valores
Bull & Bear / 11 valores
Oporto / 17 valores


O restaurante do Sheraton, o Porto Novo (na Rua Tenente Valadim, 146, T. 220404199), reúne várias qualidades: a sala é muito ampla e atravessada de claridade; as cadeiras, eterno calcanhar de Aquiles dos restaurantes portugueses, são confortáveis cadeirões forrados a veludo; a decoração é um curioso compromisso entre estética fria e tons quentes; o ambiente é cosmopolita; a cozinha obedece a padrões de qualidade indiscutíveis; o staff é simpático. Óbice: o serviço é lento e não corresponde ao que se espera de um hotel de luxo. Os preços são altos, mas nada que a concorrência de menor qualidade não pratique. Uma refeição para dois raramente fica por menos de 110 euros, que foi quanto custou a nossa: couvert, água, uma garrafa de vinho (um Shiraz chileno), duas entradas, dois pratos principais, duas sobremesas e um café. Num jantar da semana passada comi tranche de cherne sobre risoto de trufas negras. Estava sublime. O resto, um creme de santola, uma salada verde, tagliatelli de lagostins, um cheesecake de panacota e uma macedónia de frutos tropicais, igualmente muito bem. Mas é preciso dizer que as entradas (a sopa e a salada) chegaram à mesa uma hora depois de nos termos sentado. Numa sala com capacidade para 120 comensais, onde estavam cerca de 30, nada justifica a demora. Registe-se que servem jantares até às 23:30h. Os 17 valores da classificação relevam da qualidade da cozinha e do conforto geral. Outro galo canta a cerca de duzentos metros de distância: o restaurante do 7.º piso da Casa da Música, o Kool (na Praça Mouzinho de Albuquerque, vulgo Boavista, T. 226092876), é um verdadeiro desastre. Resulta bem em reportagem fotográfica... mas in loco parece as traseiras de um estádio de futebol. O piso é feito de material negro, absorvente, que retém os detritos das muitas solas que por lá passam. O efeito é devastador. O arquitecto do Grupo das Lágrimas bem pode limpar as mãos à parede (em cimento cru). A decoração pisca o olho aos anos 1950, com os seus tons laranja e os forros almofadados a napa. A parede de vidro transparente que separa a cozinha da sala dá um ar de promiscuidade ao ambiente. A escultura de Joana Vasconcelos, feita a partir da montagem de centenas de garrafas, não tira nem acrescenta. O chef Augusto Gemelli, de Lisboa, concebeu a ementa e formou a equipa. Um almoço ligeiro, de rigatoni com molho de tomate, pintada recheada de foie gras, mais uma garrafa de água, um gelado industrial, um amostra de tarte tatin e um café, ficou por 44 euros (duas pessoas). A pintada, excessivamente cozida, estaria feita há desoras: chegou à mesa cinco minutos depois de pedida. Salvou-se a extrema afabilidade da empregada que nos serviu, uma sósia de Paula Moura Pinheiro. Não merece mais que 9 valores. O dia foi realmente para esquecer, porque o jantar no Bull & Bear (na Avenida da Boavista, 3431, direcção Castelo do Queijo, T. 226107669), o restaurante do Miguel, como sói dizer-se, é um mito urbano. Quando abriu, há dez ou onze anos, não me recordo exactamente, achei vulgar. Terei voltado, entretanto, mais duas ou três vezes. A impressão manteve-se, os prémios sucederam-se, e a fama em crescendo. Não ia lá talvez há quatro anos, soubera da remodelação de 2005, achei que devia voltar. Para esquecer. Resumindo muito: um caril de camarão sofrível, uma açorda de camarão fria, uma dourada com berbigão a passar-se para o outro lado (o prato foi devolvido). Moral da história: 96 euros por três pessoas (a dourada não foi debitada), sem entradas, uma única garrafa de vinho (o Trincadeira do João Portugal Ramos), água, três sobremesas, um chá e um café. O escanção era muito simpático. Os outros empregados tropeçavam na mesa sem pedir desculpa. Desta foi de vez: assunto arrumado. Fica com 11 valores. A desforra veio com o Oporto (no Largo da Igreja da Foz, 105, T. 226100727), que é, no ambiente informal, porém sofisticado, uma simbiose de dois restaurantes de Lisboa: o XL e a Travessa. Quem conhecia o antigo Chez Dino, junto ao edifício da Alfândega, conhece o proprietário, o estilo e a escola culinária. Mas o Oporto ocupa o triplo do espaço e tem uma decoração mais requintada (digamos que é o amplo salão de jantar de uma casa de campo senhorial... com retratos do Who’s Who portuense nas paredes). Um jantar para seis pessoas, sentadas numa bela mesa oval onde cabiam oito, ficou em 195 euros (ou seja, 65 por casal, e não por pessoa, como de início se escreveu). Toda a gente comeu entradas e prato principal, ninguém ignorou as sobremesas, e só os cafés é que foram cinco. Garrafas de vinho (um Shiraz australiano) foram três. Serviço extremamente atencioso, nível gastronómico médio-alto. Os filetes de pescada (fresca) e salmão (fumado) são um achado. E os profiteroles tão bons como em Paris. Vi entrar gente, e ser muito bem recebida, às 23:55h. Só pode merecer aplauso. Leva os mesmos 17 valores que o Porto Novo, pelas razões que passo a explicar: no restaurante do Sheraton, a cozinha é muito mais criativa, mas a lentidão do serviço “anula” essa mais-valia; no Oporto a cozinha é mais casa de família, mas a qualidade e fluência do serviço “puxa-a” para cima. Daí o empate. Epimítio: o Porto está caro e difícil de decifrar.

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